terça-feira, dezembro 2

Existências

Era estranho. Era estranho o homem que passeava na carruagem do comboio de cores mortas. Nada evidenciava a sua idade, não fosse o seu nariz adunco a adivinhar os anos pesados dos seus olhos. Era estranho. O homem que me olhava desconfiado, do outro lado da carruagem, tinha a boca retorcida e o cabelo desalinhado. Tmbém eu o olhava. Olhava-o por fora tentando adivinha-lo por dentro. Porque me olhava assim? Ele era apenas um velho indivíduo que desconfiava por meio do olhar e sorria pelos gestos. Tinha tiques. Lia o velho jornal de maneira descontrolada, como se visse tudo e não percebesse nada. Um estado de iliteracia. Talvez eu sentisse medo, mas a curiosidade de vasculhar os seus pensamentos e receios fizeram me fixar o olhar no pobre homem. Era imoral, sim. Era imoral tentar olhar aquele homem por dentro, compreender o que ele sentia ao ler o jornal, o que pensava enquanto via as paredes a correr fora da janela do comboio. Queria conhecê-lo, saber mais acerca das suas recordações, perceber o que restou e o que se evaporou da sua memoria. Não era uma fixação, era apenas a curiosidade de conhecer o que existe. Não havia nada a mais nele que no homem ao meu lado, havia apenas ele. Tomei-o por certo, pensei determinar a sua consciência num acto presunçoso de adivinhação, mas quando o contraste do olhar e dos pensamentos se torna demasiado vago e enublado nada se compreende. Enquanto o adivinhava tentava ver-me e nada aconteceu. Não o perscrutei e não me reconheci. A existência é algo insondável, corresponde à prisão da alma pelo corpo, e do corpo pela vida. Então o significado de o olhar em mais nada resultou senão em fadiga. Pois o que ele era ali poderia não sê-lo noutro lugar, a consistência torna-se inconstante, e o que ele parecia teimar em esconder era exactamente a verdade dele mesmo. Porque somos o que não queremos, e quando o queremos ser a veracidade das nossas palavras desmorona-se diante de nós, e tudo deixa de ser o que é. Somos seres inconstantes, irreflectidos e imperfeitos. Então escolhemos pessoas e crenças, as mesmas que nos façam acreditar no que pensamos ser. Mas o que somos? E o que está acima de nós? É um pensamento inconsciente, insensível. Nada do que poderia ver naquele homem me poderia esclarecer. Somos feitos para as necessidades que criamos. Eu sei que ele existe mas não vejo o que nele não existe. É complicado, é complicado tentar ver o que não existe. Então procuro o que não sei, porque o que sei já não me basta. Então concluo ao ver os movimentos da personagem que crio em torno do estranho homem, que ele é apenas mais um entre tantos, e o único dentro da sua própria existência. E nunca chegamos a ser nada. Somos apenas matéria e isso parece justificar a nossa existência. Provavelmente ele tem uma missão, uma missão que nunca chegará a saber qual é, e no final da sua vida não saberá para o qual foi concebido. A minha piedade e compaixão com aquele homem é impura, é irracional porque sou tão incompleta quanto ele, e nada faz de mim analista do seu interior. Então fecho os olhos e olho pela janela. Eu não sou nada.

Um comentário:

T. Geiroto Marcelino disse...

Querida Dê,
vi e li o teu comentário à minha última publicação; vim cá ter então. Foi engraçado perceber o que liga o teu texto ao meu, mas se não conhecesse um e outro, não perceberia, é engraçado.
E o teu texto, por vezes, parecia que estava a falar comigo...