quinta-feira, novembro 6

A vida em contraste

Mike Wells, United Kingdom.Karamoja district, Uganda, April 1980. Starving boy and a missionary.

Se houvesse uma explicação válida então a vida não teria nenhum sentido. E se por vezes o texto diz tudo, então eu não tenho mais nada a acrescentar.

domingo, outubro 19

Esfuminho



Em sinal de dedicação e devoção da pronúncia que a própria palavra invoca.

quarta-feira, outubro 8

Esperanças velozes


A estação estava a meio gás. Poderia ao julgar-se pelo numero de transeuntes que rodopiavam sobre os bancos envelhecidos de madeira, que o relógio apontava seis horas da manhã. O nevoeiro, tanto de singelo como de tímido, florescia entre as nuvens cinzentas que se dispersavam no céu azul adivinhando tempestade. Não soube ao certo se pelo frio ou pela discreta desorientação, deixei-me cair num desses bancos, envolta nos pedaços quentes do meu casaco de algodão, e ali fiquei a apreciar quem passava e quem se esquecia de passar, quem olhava exasperado para o relógio, ou ainda outros como eu, que nem por ele davam conta.

Se havia um dado motivo para a minha presença neste lugar, esse era-me completamente desconhecido. Dei por mim a recordar a companheira da noite anterior, e sem memórias da dita cuja mas não pronunciada, perdi-me em tontos devaneios. Estava ali, mesmo que sem aparente motivo.

Ouviram-se os carris a chiar sobre a linha de ferro, e automaticamente os poucos futuros passageiros aproximavam-se da linha amarela, a mesma que os avisa e alerta do limite da espera. A carruagem 33 escancarou uma das suas portas diante de mim, e como se pudesse expressar um convite mostrou-me num espaço entreaberto um lugar cativo justo à janela. Conseguia sentir o odor quente dos corpos, podia até inalar o cheiro do chocolate quente do mais jovem casal apaixonado; e no entanto, todos aqueles elementos apelativos determinaram a minha posição estática. Permaneci em silêncio, quieta, perfeitamente desumana com se de um robô se tratasse, e vi-os. vi-os todos a colocar um pé à frente do outro, a pisarem o chão cor de prata do comboio, a recostarem-se nos bancos estufados. Nada daquilo me teria despertado qualquer tipo de interesse, não fosse um senhor de idade, meio calvo, meio careca, de óculos de lua cheia e olhos de quem olha por dentro sem reparar no que o reveste por fora, a benzer-se diante daquela porta cor de vinho.

Ouviram-se os três bips, o comboio partia e com ele levava as esperanças daqueles que nele as depositaram. Quando vi as portas que se fechavam como celas sem saídas, e percebi pelo rastro de vento que resfriou a minha cara, que o comboio já só se deixava avistar ao longe, percebi que aquele homem, sem grande contagem de novas primaveras, se preparava para mais uma batalha contra si próprio, contra a linha da sua vida que lhe preparava um novo susto. Perfeitamente igual a tantos outros, sobretudo para mim, aquele ser agarrou-se dificilmente às barras laterais da portinha cor de hortelã, e nem sei em que tempo isto aconteceu, mas foi como se aquele gesto de movimentos bruscos falasse e me dissesse que mais uma barreira tinha sido trespassada. Todas aquelas carruagens que por mim passavam e me confundiam o olhar, deixando-me cega por tanto movimento, representavam ciclos contínuas da minha vida imatura e crua. Não pelos poucos anos da minha existência, mas simplesmente pelo facto de nunca os ter entendido no seu todo. Olhei para as minhas mãos, e se pudesse, se pudesse teria tocado em todo aquele fervor, em todas as emoções expressas naqueles bocados de ferro, e teria entendido o quão o toque significa para mim. Porque me ceguei de tanta energia e ainda assim conseguia tocar nos meus olhos vidrados num vício sem fim, podia tocar a pele fria da minha cara e compreender o vento em todos os seus sentidos, e poderia tocar em todas as formas sem nome mesmo sem lhes poder avistar a cor. E quando me toquei, e num ímpeto de nova luz para os meus olhos entendi que as minhas esperanças não se deixaram fisgar pelas carruagens que corriam, aí sim compreendi que elas tinham simplesmente nascido.
Estranha passageira.

sexta-feira, setembro 5

A fórmula da solidão (excerto)

22, Agosto de 2008

Penso ter descoberto o segredo dos deuses. A fórmula secreta da eternidade e a verdade de todos nós. De todos os domínios em que investi, é talvez este o que mais receio.
A ideia da divulgação deste segredo fascina-me ao mesmo tempo que me assusta. O sangue gela-me os ossos de cada vez que penso partilhá-la com o meu querido Óscar. Por outro lado sinto que de qualquer forma, este seria o perfeito elixir para o meu marido, para a minha solitária mãe, e talvez para mim nas noites em que ele trabalha alienadamente, e me deixa a dormitar sobre os lençóis frios de cetim.
Passaram-se semanas até que conseguisse voltar a recuperar o fôlego e o ânimo para escrever. Tenho vivido uma experiência incrível em segredo, e o facto de a ter de olvidar do Óscar, provoca-me arrepios e uma atemorizante culpa. Sinto-me traída por mim, porque teimo em dissimulá-la da minha mente, e sinto que estou a trair o meu marido, por não lhe poder e conseguir confiar este mistério.
Enquanto contrabalanço os efeitos benéficos e nocivos daquela que será a maior noticia dos últimos tempos, penso que estar sujeita a interveniências exteriores. Tenho dormido pouco nos últimos tempos, e durante o ínfimo tempo em que mantenho os olhos fechados, dou por mim com a respiração ofegante. Vejo-me sozinha num espaço colossal, e transporto em mãos documentos valiosos, os quais valem fortunas desmedidas, e no entanto quando os penso entregar abate-se sobre mim uma tristeza tão profunda que os desvanece da minha posse. Isto faz-me cogitar que talvez ninguém deva saber da minha investigação, nem mesmo o meu querido Óscar. Talvez seja um sinal ou um mero receio de quem se deixou possuir pela dúvida, mas não insisto em arriscar, pois suspeito que mesmo tendo esta formula poderes absolutamente inefáveis, segundo os livros dos sábios, pode atraiçoar quem por ela cobiçar assoberbadamente.
Entre dúvidas e receios penso no Óscar. Penso na forma como esta receita divina o poderia ajudar a libertar-se de si mesmo. Por outro lado não o imagino de outra forma, aprendi a conviver com o seu isolamento, assim como ele aprendeu a coabitar com os espectros que o atormentam nos dias mais mórbidos. Talvez seja isto que nos une, a capacidade de coexistimos numa casa comum, mesmo tendo concepções de mundo diferentes, mas indubitavelmente paralelos. Amo-o porque encontrei nas suas imperfeições as minhas virtudes, e nas suas qualidades os meios defeitos. O nosso casamento trouxe-me cada vez mais certezas, e nas influências dos pensamentos inconstantes do meu marido não descobri quaisquer efeitos nocentes, não deixar de pensar por mim devido à afluência dos seus ideias, não deixei de ser eu para passar a ser um clone dele, tal como ele também não o fez. Ao invés disto, passei a ser ainda mais convicta de mim por descobrir que estive segura na escolha do homem certo, no companheiro que por não ser perfeito relembra-me que também não o sou, e isso faz-me pensar. E enquanto penso evoluo, e por isso supero os meus medos, porque sou capaz de reflectir sobre eles.
Não sei o que é isto do casamento, e francamente julgo nunca poder descobrir. Não o vejo como um desses romances de novelas mexicanas, aquelas que a minha mãe gosta de assistir para se enganar sobre o seu próprio casamento. Para lhe acrescentar adereços e apêndices que não existem.
Tenho estas certezas por acreditar que as convicções se desfazem com o tempo, e saber disto faz-me desacreditar que posso ter certezas. Presentemente tenho a firme convicção de que amanha posso não acordar com as verdades do dia anterior, e enquanto assim pensar posso dormir feliz, sem ter a segurança do que é a felicidade.

Jane Green
Escrito por Andreia Silva

quarta-feira, julho 30

pedaços do meu pequeno projecto

- Aqui somos nós e indiferença com velhice por sabermos que ela cria raiz na mente e não no corpo, para onde vais é a inconsciente pressa de a acelerar na mente e de a dissimular do rosto. Para o relógio os dias são iguais, para nós o tempo é a nossa própria substância. – Abraçaram-se demoradamente, sem tomar atenção a repetível campainha que soava indicando o embarque. Pelos ares partiu Ariel para um novo mundo, em terra firme ficou James e o segredo que mudaria o mundo actual.

- Penso que nunca vou estar completa. Não posso ambicionar ter tudo porque nem mesmo o “tudo” me pode preencher a alma. Sinto que para se subsistir é necessário almejar algo que nos próprios desconhecemos. Nunca estarei completa enquanto estiver viva. Se um dia o pensar então deixarei de viver, pois nessa data não terei nada para ambicionar e verei os dias prosseguirem repetidamente. - Suspirou baixinho e deitou a cabeça sobre a fina manta de linho. Ao seu lado James sorria pela coragem de Ariel.


Andreia Silva

domingo, julho 13

Na pele de um humano

Nada faz sentido. Nada disto faz sentido. Não pode haver sentido onde já se perdeu a esperança. Não pode haver esperança onde nunca houve sonhos. Quero fechar os olhos e ainda me ardem as lágrimas que sozinhas caem sorrateiramente. Não me importa o futuro porque odeio o presente, não me imagino a viajar nas águas torbulentas da vida, não suporto esta espera da ténue maresia, não quero nem posso imaginar nascer de novo, não desejo mudar de vida só procuro um sentido inexistente. Quero ficar sozinha sem me lembrar de que existo. Sou solitária e não me importa o que possam pensar. Quero-me a mim e só a mim, e ainda assim não me suporto. O Homem não é racional, tem a consciência ilusória de que é, mas no fundo não consegue viver com a sua razão. Procura desenfreado títulos que expressem a vida, acreditando que a vida é uma constante série de procuras. Sou irracional e só desejo aprisionar-me em mim mesma. Não quero razões quero apenas perguntas, deixei de me perguntar e agora não sei viver.
Só quero ficar comigo. Vão-se todos.

sexta-feira, julho 4

Vícios

Trabalho. Trabalho desesperada e afincadamente. Trabalho, trabalho, trabalho. Mexo os músculos e comprimo-os quando o corpo parece não resistir mais, mas continuo. Sinto-me febril mas ainda assim não paro. Não posso parar, não posso descansar os músculos, não devo. Deixem-me suar e espalhar o trabalho, deixem-me suspirar ansioso de mais movimento. Não acabo, nunca termino este trabalho, não posso, não devo. Choro porque sinto a necessidade indispensável de continuar a trabalhar. Deixem-me entregue Às minhas mãos, quero ficar apenas com os meus dedos inquietos e os meus braços enérgicos. Sinto-me fruto do trabalho, e o trabalho é também um fruto de mim mesmo, sou eu. Não posso parar, não devo. Grito quando a cabeça lateja devagar e me obriga a fechar os olhos, estremeço quando as forças se esvaem sem consentimento, canto para tentar entreter os músculos doridos, não posso parar, não devo. Ao meu lado permanece a fiel garrafa inquieta e disposta a colaborar no meu trabalho, ela funciona como o óleo que limpa as minhas engrenagens e lhes dá força. As luzes baixas deste lugar sagrado e impenetrável por movimentos exteriores, continuam infinitamente acesas e ansiosas por mais energia, também elas se aliaram ao meu elixir, não posso parar não devo. Sou também parte destas sombras, sou também disforme porque quando trabalho não reconheço nada a não ser as minhas mãos: enrugadas, feridas e ansiosas pelo tacto insaciável. Não aprendi a ser outro porque nasci a trabalhar, e talvez por isso nunca soube cuidar de ti, porque nunca aprendi a cuidar de mim. Não importa em que trabalho, a certeza de que mexo o corpo basta-me. Lembro-me de ti mas retomo o trabalho, a tua ausência criou-me vícios incuráveis, não posso parar, não devo. Não quero pensar que um dia exististe em mim, não posso, não devo. Sou sensível aos vícios e não quero fazer de ti algo vicioso. Deixa-me vai-te embora de mim, odeio vícios e quero trabalhar. Não penso porque felizmente as minhas mãos reagem aos meus estímulos. Não quero lembrar-te. Desaparece de mim.
Mesmo incoerente não quero ter vícios, deixa-me trabalhar, o trabalho não é um vício é a minha filosofia.