sábado, junho 21

Separações (fragmentos)

"Parto sem palavras, porque os meus olhos não a conseguem encarar de frente. Parto por saber que se a voltasse a encarar, provavelmente deitar-me-ia consigo durante noites infinitas e perderia a juventude como as frutas do nosso quintal. Parto por saber que anseia pela minha felicidade mesmo que isso afecte a sua."


in "Saída sem porta", Andreia Silva
Irrita-me. Irrita-me pensar que te amo. Sufoca-me. Sufoca-me a ideia de estarmos separados. Odeio-me. Odeio-me por te amar mas sobretudo por te deixar sair da minha vida sem sequer te cobrar. Enerva-me. Enerva-me essa tua forma simples como te resignaste, enerva-me pensar em ti mas perco-me a tentar imaginar-te. Impressiono-me. Impressiono-me com o teu jeito de desistir. Enlouquece-me. Enlouquece-me ver a tua sombra a dormir ao meu lado. Deixa-me. Deixa-me, não quero pensar nos caminhos antagónicos que seguimos. Não quero, nem posso. Vai por favor. Prefiro perder-te de vez a lembrar-me que desejo percorrer um caminho paralelo ao teu.
Andreia Silva

sábado, junho 7

Vivemos num Mundo ao contrário? Ou do lado avesso do mundo?

São 6h da manhã. O sol já nasceu sem que fosse preciso despertá-lo. Aqui por detrás de um mundo que não avistamos o dia parece nem dormir. A rotina barulhenta das armas que disparam incessantes não nos descansa, não nos deixa fechar os olhos sem que tenhamos o receio de não os voltar a abrir. O rebanho já está preparado, embora não haja preparação. Eu sei que também as minhas ovelhas sentem a inquietação de quem não sabe o dia de amanhã. Noto-lhes a força como agora comem a erva, e o rebanho mantém-se cada vez mais próximo. Sim, também eles têm a premonição de que a qualquer instante uma arma nos extermine o sopro da vida.

Acordo mesmo que na noite anterior agora já dissipada pelo sol os meus olhos não tenham fechado. Ficaram vigilantes e atentos aos meus quatro filhos, ao meu lado aparentemente descansados, mas também eles, também eles por mais que lhes doa o sentimento de que a infância lhes foge por entre os dedos, sabem que a qualquer momento a minha cama poderá deixar e estar anexada à deles. Ser mãe foi como ter uma esperança de que as nossas gerações seriam salvas por estes guerrilheiros que sem armas calariam o país, estas crianças que se tornariam opositores a este regime sem estrutura disparatadamente abusivo e instaurassem as leis que deixassem o sol dormir mais um pouco.

Os homens chegaram. Levaram dois dos meus filhos. Deixaram as meninas com a ameaça certa de que ao meu terraço voltariam para as levar. Arrancaram-me a roupa. Penetraram-me sem dó, fui espancada por que gritava com lágrimas e porque me enojava com aquelas barbas que roçavam contra o meu peito. Pensava no meu marido, também ele se sentia obrigado a entrar nesta luta contra a vida e agora morto abandonou-nos nesta terra maldita. As minhas filhas viam a minha desgraça nas mãos de outros estranhos que violentamente me rasgavam os panos velhos envoltos no meu corpo. Choravam e gritavam uivos de dor, não as olhava directamente por vergonha, e ver aqueles animais chicoteá-las feria-me o coração e dilatava-me o ódio. Eles foram embora, foram-se e então olhei-as directamente. As minhas filhas, a razão pela qual eu aguentei tudo isto. Mas não aguento mais, não aguento vê-las abandonar a vida. Não suporto a ideia de que por dentro elas já estão mortas. Não sorriem. Talvez porque a fome não lhes deu consistência às bochechas. Desnutridas bebem das poças na ruas e eu, eu imito-as como cadelas sem dono nem água. A seca arrasou a nossa produção. Cultivamos milho mas agora a terra secou, também ela já se cansou de nos dar a esperança inexistente no futuro. Acabou. Vivemos na Republica democrática do Congo, aqui onde a nossa voz é abafada pelas granadas que explodem ao longe mas que soam tão perto dos nossos ouvidos que acabamos por ficar surdos. E pensar o palavreado democrático é traduzido pelo ruído ensurdecedor das vozes aclamadas destes homens impiedosos mas profundamente miseráveis. Gritam, batem, lutam mas na realidade só desejam a paz, só precisam de sentir que não há nada para lutar, não há rivalidades intransponíveis, não há bens que valham as mortes e as atrocidades que mancham esta espécie: o Homem. Pensam desesperados que mais um dia passou e pelo destino ou algo mais sobreviveram. Voltam para as suas casas receosos da paisagem que possam encontrar: as mulheres estendidas e perfeitamente receptivas ao último suspiro, os seus filhos ensanguentados e emagrecidos pelo excesso de miséria.

Anoiteceu. A lua cobre-nos a cabeça na incerteza de voltar a sorrir-nos amanhã. Elas adormeceram. A cidade permanece agora silenciosa, um silêncio medonho que assusta e que a qualquer momento pode ser irrompido por uma explosão. A neblina espalha-se deixando um rastro de sangue entranhado na calçada, sangue que não desaparece com a chuva que cai esporadicamente. Olho para os seus rostos, uma última vez, um pouco mais. Choro. Choro como uma criança que acorda de um pesadelo, choro veementemente por viver num dilema em que não vejo nenhuma saída. Ouço pela última vez a sua respiração. Não gritaram. Vendei-lhes os olhos para não verem o rosto que lhes tirou a vida. Vendei-me a mim própria para não ver o assassino que lhes tirou a vida. Lavei-as com a água que durante o dia procurei. Benzi-as e vestia-as com os últimos fatos comprados pelo meu marido. Abri uma vala e cobri-as com a terra onde nasci, cresci e irei morrer. Amanhã os homens voltarão mas não encontrarão os corpos. Amanhã não realizarão mais um negócio pagando-me uma moeda e levando-as à força para o destino da prostituição. Não, amanhã as minhas filhas já poderão descansar em paz, porque não poderão recordar o rosto ensanguentado da mãe que lhes tirou a vida. Agora vou vestir-me e lavar-me com a pouca água que sobrou, não para morrer com dignidade mas apenas porque no paraíso não quero envergonhar as minhas filhas.

Em Dezembro, a MSF tratou cinco mulheres e uma adolescente de 14 anos perto de Pweto que disseram ter sido estupradas por soldados do exército congolês. O problema pode estar subestimado devido ao medo e ao estigma (...)Um relatório publicado pela entidade em novembro do ano passado revelou que os índices de mortalidade em Kilwa são de 4.4 mortes para cada 10 mil pessoas entre crianças com menos de cinco anos de idade.


2 milhões de pessoas são traficadas todos os anos, a maioria são mulheres e raparigas;
Dezenas de Milhares de mulheres e crianças foram sujeitas a violações e violência sexual desde a crise no Darfur em 2003; Relatório Anual 2007 Amnistia Internacional

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São 8h da manhã. O despertador incomoda-me o ouvido e alerta-me para mais um dia. A terra das oportunidades, pensei eu enquanto tomava duche e massajava as costas. Hoje tenho 5 reuniões e um negócio que poderá render milhões... Visto-me apressado porque aqui tudo corre, ouço o barulho ensurdecedor dos carros que desvairados atravessam as ruas com a intenção de recuperarem os 5minutos que perderam no café.

Chego ao escritório e enfrento as reuniões com estofo. Sorrio de forma escancarada e suspiro em segredo. Finalizo negócios e o tempo acompanha-me. Almoço a dois quarteirões do escritório. Peço Hamburguer c/ batata frita na pressa de regressar novamente ao emprego, sorrio porque sei que os minutos a menos no almoço são seguidos da sobremesa milionária. Vejo os zeros à direita e sem pensar muito rebusco uma assinatura. O expediente acaba e atiro-me às ruas de New York: compras, convido uma amiga para jantar e terminamos num bar divertidos.

Aqui o tempo ultrapassa-nos mas rende-nos a comodidade. Não vemos crescer as rugas mas apreciamos o esforço académico reflectido numa conta bancária recheada. Tenho os minutos cronometrados com o ginásio, a ida ao supermercado, o novo filme que estreou no cinema e os jantares entre amigos. Aqui onde tudo acontece à velocidade da luz tento manter-me a par do que acontece para lá dos limites americanos. Sento-me na minha poltrona e vejo o noticiário: crimes, bolsa, finanças. A emissão interrompe para anunciar crimes internacionais; mães que matam os filhos em terras africanas e suicidam-se de seguida. Estará o mundo louco? Decido ligar à minha mãe e concordamos em passar o Natal juntos. Não entendo como uma progenitora pode matar os seus rebentos? Uma mãe nasce, cresce e morre por eles, mas nunca os mata.

O sol regressa e consigo traz a luz da manhã. Acordo. Leio o jornal. Tomo o café a correr e corro para o escritório. Aumento a minha conta e anoto as despesas. Compro um perfume e dou-o à minha secretária. Ela é uma mulher incrível. Permaneço na indecisão de a convidar para jantar, mas reparo-lhe no decote e disparo a pergunta. Saímos e amamo-nos. Ela deseja-me e eu respondo-lhe com beijos e carícias. Adormecemos a contemplar a lua. Não sei se ela é a mulher da minha vida, mas agora quero assegurar a minha estabilidade financeira. Quero ter filhos e dar-lhes uma vida segura e cómoda. Regresso aos lençóis macios da minha cama amanhã o dia será igual, talvez até a convide novamente para sair...

Segundo o relatório da ONU, 80% da renda mundial está nas mãos de 1 bilião de pessoas que vivem nos países desenvolvidos e apenas 20% destinados a 5 biliões de pessoas nos países em desenvolvimento.

Nos Estados Unidos, os números indicam que as famílias desperdiçam cerca de meio quilo de comida por dia, o que equivalem média a 40% dos alimentos.Na Grã-Bretanha, o desperdício é estimado entre 30% e 40%.“Comida é água.

Escrevo-vos agora na 1º pessoa sem truques de personagens, aqui estou apenas eu, autora deste blog e afecta aos vossos comentários. Escrevi este post porque como em todos os outros procurei reconhecer-me numa dimensão que não a minha. Pensar que a realidade em que vivemos vai para além da vida banal que levamos doí. Doí terrivelmente, uma dor incessante que se desmancha em lágrimas perdidas e incapacitadas. Não por caridade, não por solidariedade mas conscializar-me que estas histórias existem muito para lá da ficção desta janela provoca-me sofrimento. Um sofrimento dorido e profundamente egoísta, porque eu continuo aqui. Permaneço sentada na minha cadeira e apenas escrevo, escrevo mesmo sem saber que não ajudo nem nada faço para contribuir contra um mundo que não dominamos. Irrita-me ver esta realidade marginalizada e completamente indiferente aos olhos da Terra, assisto pela TV porque tenho medo de me atirar a dimensões estranhas, macabras e aterrorizadoras. Irrita-me a minha forma de agir como se nada fosse. Choro por vergonha destas pessoas. Vivemos num Mundo ao contrário? Ou do lado avesso do mundo? Não sei. Eu vivo do lado do mundo que sorri satiricamente, ri-se de nós, pobres tolos que inválidos continuamos agarrados a uma comodidade que não conseguimos largar porque o próprio mundo nos habituou assim. Não sobreviveria num país como o Congo, não pela fome, não pela violência, mas pela miséria de espírito, pelos gritos mudos que não poderiam soar por se sentirem reprimidos ao gatilho mais próximo. Sim eu sei, eu sei que todos somos vitimas desta comodidade que nos engana e fecha os olhos e os ouvidos a estes gritos. Por isso escrevo, e muito mais escreveria se me pedissem, escrevo porque me envergonho de continuar na minha cadeira, mas enquanto puder e sentir que sou mais uma escreverei, escreverei até cansar os dedos.

quarta-feira, junho 4

Amor


- Amo-te. - Disse olhando-o directamente nos olhos, como sempre fazia.

- Como assim amas-me? - Respondeu tresloucado com tal declaração.

- Assim, amo-te. - Encolhi os ombros e voltei a fixar o horizonte. Costumávamos sentarmos-nos no muro a contemplar o horizonte. Ali soberano e longiquo, tentávamos adivinhar o que se escondia por detrás das nuvens disformes. Conversávamos com o silêncio e acabávamos exaustos de tanto falar por sorrisos e suspiros.

A tarde estava quente, e ao fundo de um tapete de azul infinito escondia-se um mundo que já antes de ser catalogado nos pertencia, antes de haverem países, cidades, monumentos e maravilhas, o universo fora nos oferecido. Paris, Espanha, Índia... o mundo passava em película morosa e repetitiva sem nunca cansar os espectadores, e nós maravilhados por saber que antes do nascimento das cidades imperiais e dos monumentos majestosos, já o universo se tinha encarregue de nos incorporar num só crepúsculo. Sentiamo-nos unidos por uma força inexplicável e superior ao compromisso de sangue. Talvez fosse o destino, talvez, talvez, talvez... Não importavam os "mas" eu descobri que o amava e a felicidade desta relação transbordava em sorrisos pateticamente genuínos.


- Olha o que queres dizer com "amo-te"? - Perguntou-me, interrompendo o meu pensamento.

- Sei lá, amo-te e isso chega-me. - Estava impaciente com tanto interrogatório.

- Mas não entendo...

- O que é que não entendes? Eu é que não entendo essa tua obsessão numa confidencia vazia de outras interpretações que não seja o amor.

- Não entendo... Nós somos amigos...e... sempre fomos como irmãos. Lembras-te? Estamos unidos por uma força... inquebrável.

- Sim. Por isso mesmo amo-te. Amo-te. Amo-te. Isto chega-me e a ti, não?- Retorqui isenta de meias medidas e formas de dizer uma única só verdade. Ficou pensativo, mas não foi capaz de me encarar.

- Desculpa. - Disse envergonhado. Finalmente percebeu. Soluçava baixinho mas sorria tal como eu. Agora sim nada nos podia separar. O mundo presenciava e abençoava esta revelação. O horizonte escancarava as portas já abertas por nós, mesmo antes de estarmos juntos. Sim, amávamos-nos. Um amor sem limites tal como o amor deve ser. Um amor puro e infinito, era assim... Não o conseguia descrever... apenas podia afirmar com a certeza inabalável de que nunca nos iríamos separar. Sim. O nosso amor era uma chama que ardia sem se ver, a chama que clamava mais alto quando estávamos em apuros, a chama que borbulhava quando estávamos juntos. Uma chama inocente sem segundas intenções, sem indecisões, sem medos, sem birrinhas. Era tão simples. Conheciamos-nos desde crianças e desde o primeiro momento tornámos-nos amigos.

"- Posso brincar contigo?"

Ainda me lembro da tarde fantástica que tivemos na praia após a tua coragem. A pergunta que deu inicio a um ciclo que concerteza se renovará com as nossas gerações. Era patético tentarmos ler a forma de classificar o amor, o amor não é isto nem aquilo, é um todo. É o que eu quiser ou o que tu quiseres desde que seja puro. Não há amizade, nem amor fraterno, nem amor de homem e mulher que tanto os poetas descrevem. Há amor. Há amor simples e desprovido de rótulos. Somos amigos e para sempre seremos. Digo-o com a veemência de quem sabe o futuro. Não estou a ser sonhadora e muito menos estou presa a uma ilusão prematura. É sempre amor, em qualquer circunstância, é amor independentemente por quem é sentido. Pode haver paixão, desejo, companheirismo, protecção mas é sempre, sempre amor. E descobrir a fórmula pura e sem aditivos do amor fez nascer em mim a verdade da impossível solidão. Nunca estarei sozinha enquanto no mundo houver amor, e enquanto em mim estiveres tu, meu querido amigo. Amo-te.

segunda-feira, maio 19

Apresentações sem inscrições

Olá. Chamo-me Juan Feácio, sou pintor como opção e por vontade própria. Descobri-me na ponta de um pincel e na distinção da tonalidade das cores. Auto-retratei-me e reconheci o meu rosto. Pinto por prazer e não por motivos ideológicos, retrato a sociedade porque me incluo nela e não porque que me sinto excluído como figura ilustre e integrada num patamar superior. Pinto não pelo receio do que é efémero mas para viver o presente. Tenho fobia a códigos e portanto a minha obra é limpa e clara e não tentem os supostos analistas julgá-la como um recalcamento intrínseco na forma como disponho as pessoas na tela: são apenas pessoas, não precisam de assinalar algo que é fantasiado, são o espelho do que vejo e sinto e não a legenda de pressupostos sociais; pintar um camponês ou um burguês é apenas motivação interior, e portanto não procurem rotular o camponês sacrificado e o burguês tirano. Não há necessidade de entrelaçarem na espontaneidade do que faço um significado; sejamos realistas afinal a pintura é um estado puro e tão profano como qualquer outra arte, então deixem de lhe acrescentar os "mas", deixem-se apenas fundir com a tela, eu pinto porque quero e não porque carrego o peso da posterioridade. Obrigado. ________________________________________________________________

António Ulisses é o meu nome, e muitos mais acrescentaria para me apresentar enquanto escritor. Escrevo desde que me conheço e conheço-me desde que escrevo. Já escrevia antes de iniciar a minha escolarização e hei-de escrever depois da minha decadência. Editei contos, romances, aventuras... e mais hei-de escrever enquanto a minha caneta não secar e a minha cabeça não me atraiçoar. Já ganhei um Nobel mas ainda não escrevi o livro da minha vida, portanto não me venham dizer o que é de boa qualidade. Quarenta anos depois, a máquina de escrever continua a olhar-me de soslaio, parece desconfiada e no entanto tornámos-nos amigos desde o primeiro momento. Perguntam-me se sou casado, e seguro que a minha menina está sobre a mesinha de madeira da varanda. Olham com desdém e riem-se contraídos de uma falsa piada. Saberão o que é o humor? Talvez leiam com seriedade as críticas literárias ao meu trabalho e aí sim pequem por patetice. A piada está ali: escancarada nas colunas de crítica despojadas ao canto do jornal. É hilariante que estes supostos conhecedores da literatura descubram nos meus livros algo que nem sequer eu plantei... fantasmas e mais fantasmas. Mas porque é que tudo tem de ter um porquê? Deixem-se conduzir, a escrita é de tal forma sedutora que não precisa de pretextos para florir, deixem-se de porquês sem fundamento. Leiam, leiam, leiam até conseguirem perceber, e não se distraiam com que finge perceber e vive na dúvida do que diz. Obrigado
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"Fui bailar e o meu batel...", assim me começo por apresentar, começo pelo início e portanto pela minha essência: a música. Tornei-me cantora na banheira e ainda hoje pratico no chuveiro portanto não em dêem um palco, felizmente eu tenho voz, aproximem-se se me querem ouvir e partilhem comigo esta linguagem. Partilhem esta forma sonora de comunicação, sintam a simplicidade das notas, sintam-nas apenas. Não precisam de conhecer a letra, não são as palavras que contam mas a forma como as dizemos, não as digam, cantem-nas. Não atribuam à minha música géneros e estilos, não atribuam razões e entoações, não porque me incomoda ou me aflige mas porque elas não nasceram de mim, mas de quem as tenta aprisionar num enredo falseado. Continuo a dormitar com as musicas que componho e deixo-me acordar com elas completas, nasceram de um sonho porque e própria as entendo assim. Sou eu, és tu e o outro, somos todos ali escancarados no refrão. Não é ninguém, não há motivos, não há pretextos ali, por favor deixem-se de fantasias apaixonadas sobre antecedentes trágicos e desgostos de amor... estou aqui, aproximem-se, sim aproximem-se mais, somos todos fruto da poesia das pautas dos maestros. Sim esta sou eu: a música, a minha e a nossa música.

sábado, maio 17

Nova casa

O meu primeiro aniversário na minha casa nova. Pensei eu isento de sanidade e com um saco entrelaçado nos dedos. Quando era mais novo ficava tão nervoso com a chegada do meu aniversário que na véspera não dormia, e ainda hoje com 67 anos isto acontece. Parece mentira que um velho, aparentemente sem sonhos e com a vida por um fio, permaneça uma noite a olhar para as estrelas na ansia de poder dizer que esteve entre os vivos mais um ano. Mas eu não tenho sonhos aparentes, eu sonho e idealizo, eu ainda acredito que a vida me reserva algo especial, mesmo que os meus filhos me chamem de tolo e descartável.
Esta casa não tem aquecimento... mas rapidamente habituar-me-ia ao chão frio, em troca adormeceria com as luzes da cidade a embalarem-me o sono e a preencherem-me o olhar. Por vezes permanecia horas intermináveis a contemplar aqueles livrinhos dos turistas com as zonas mais belas da cidade, e é ridicularmente estúpido que lá não coloquem a fotografia dos pirilampos que reflectem no rio, é absurdo que não consigam ver a beleza imensa da luzinhas que abrilhantam as águas doces do rio. Realmente a electricidade era uma coisa fantástica. O Thomas Edison devia ter ficado apaixonado pela sua invenção. Eu fiquei. Felizmente que não tenho tomadas nem interruptores na minha casa nova, assim as luzes permanecem acesas ao longo da noite.

Lembrava-me incessantemente da minha mãe porque não queria recordar que sou pai, lembrava-me dos seus cabelos porque o rosto já se apresentava disfocado, e esquecia-me dos meus filhos porque não conseguia apagar os seus rostos da minha memória. Não tinha revolta, nem dor, no fundo eu fingia que os compreendia para não os ter que desprezar. E mesmo com a desilusão contida nos olhos, as portas da minha casa estavam abertas. Mas eu sabia que eles nunca viriam, e por isso mesmo nunca as fechava. Provavelmente nem recoradar-se-iam do dia de hoje, o dia do meu aniversário. Ofereci-me a mim mesmo uma nova cama, não muito quente mas resistente ao meu corpo, e a D.Rosa, uma vizinha deu- me os lençois. A minha primeira vizinha e de certo uma amiga. Jantámos juntos, uma refeição leve, a idade não perdoa e a minha dispensa ainda está em défice mas assim que puder já lhe prometi um desses jantares que ninguém sabe o que é, apenas lhe dão um nome. Ela mostrou-se ofendida, é uma mulher talhada na terra, gosta do que é bom e do que enche a barriga, portanto concordámos que seria um cozido à portuguesa, um prato da nossa terra, com o sabor tradicional e com cheiro de enfartar.

Uma personagem contraditória a D.Rosa; disse-me que mudara de casa há muitos anos e que já se habitou a viver sem móveis, enpertigava-se para se mostrar uma adepta ferranha do comunismo, injuriava o capitalismo porque sabia que não fazia parte dele, mas no fim das suas exclamações exaltadas, acalmava-se e adormecia com a sua menina na mão, como lhe chamava. Entregara-se ao vinho porque a cerveja era cara e fazia barriga, mas quando podia não se negava a uma branquinha. Fiquei sentado a olhar de sombreira para ela: invejava-lhe a energia, mas compadecia-me com a tristeza desenhada na suas rugas, uma boa senhora a D.Rosa.

Olhei de novo o rio, e já tomado pela inércia, estendi-me sobre a minha nova cama. Pensei incomodado nos meus filhos, provavelmente estariam a divertir-se numa festa da empresa onde constatemente subiam de posto à custa da bajulação do chefe, um acto asqueroso que me empurrou para fora dos limites das suas vidas. Ser o vice-presidente ou outro cargo com acentuação própria não pedia um pai aleijado e pobre, pressupunha apenas um bom fato com a ganância na lapela... Agora também já nada tinha importância. Deitei-me ao lado da D.Rosa que coitada se esqueceu-se de fechar a sua menina de cor avinhada. Ficámos os dois sujeitos à hipotermia mas ricos de luz, com a corrente eléctrica sobre as nossas cabeças que não nos deixava temer o escuro. Fechei os olhos e pensei na minha nova casa: sem móveis e apenas com uma cama de papelão mas agora com uns lençois de jornal, a minha única prenda de anos com direito a uma amiga que tinha a certeza que seria para toda a vida. Era bom morar na minha nova casa, pensei eu isento de sanidade.

sábado, maio 10

Desafio aceite

Em resposta ao desafio da Marisa, aqui apresento seis coisas sem importância pessoal:



1. A procura insitente pelas formas naturais e autênticas das coisas, essencialmente artísticas. Não precisamos de rotular as coisas mas sim senti-las,um quadro não precisa de ter um código escondido ou uma pretensãp adormecida, vale pelo que é mesmo que não tenha um antecedente.

2. Pensar que as coisas minuciosas da vida não têm importância, a felicidade resulta da resoluçao dos nossos pequenos desejos e medos e não na descoberta das crises existenciais que assombram o mundo.

3. Definir regras pessoais: criar restrições a novas situações resulta em desvios, daí que as regras não façam sentido, embora todos tenhamos príncipios.

4. Tentar integrar-me num grupo pelos gostos deles e não pelos meus. Odeio modas e sou adepta da autenticidade por mais absurda que pareça.


5. Esquecer-me que a sociedade impõe representações, e portanto mesmo a criativiadade está limitada, portanto não me prendo a cacular o tempo para as coisas pois na maioria das vezes as contas falham.

6. Não entender as coisas como algo sem importância, um dia tudo faz sentido noutro já não. O importante é sermos fieis a nós próprios. Provavelmente daqui a uns anos vai ser muito importante para mim ser organizada, mas por enquanto vivo numa confusão espacial aprisionada no meu quarto.

Assim termino esta selecção e proponho aos seguintes que façam o mesmo:

Caderno
O meu sotão de ideias
Corpo e Grafite

sábado, maio 3

Fruto de Ti


Se te pudesse dizer as noites que sozinha preencho
Certamente não me voltarias a deixar sozinha
Certamente não ficarias incomodada pelo meu olhar
E sem qualquer desculpa ou pretexto
Deitar-te-ias a meu lado e ver-me-ias chorar.

Se te pudesse contar a forma como hoje te vejo
Certamente ficarias confusa e indecisa
Com as descrições de certo tolas que guardo de ti
Mas descansa porque o tempo é inimigo
E mesmo a teu lado as nossas conversas ficticias permanecem em mim.

Se te pudesse dizer que fazes me falta porque vives comigo
Se te pudesse contar as noites em que fiquei à espera da tua sombra
sobre mim deitada e inocentemente desprotegida
Tenho a certeza que virias anónima e devagarinho
Adormecer-me e comtemplar o fruto da tua vida.