- O que achas que é preciso para ter um casamento feliz? - Ter uma memória curta. - Disse-me ele, com o ar carinhoso com que sempre me ouvia.- Então porque te casas-te?- Não me lembro. - Ficámos assim, penetrados no silêncio. Olhavamo-nos e sorriamos juntos. O meu pai era assim, tolerante e directo. E eu, eu era apenas a sua menina, a menina que queria ser independente.********
- Queres casar comigo?
- Porquê?
- Porque quero que faças parte da minha vida, porque quero-te dentro dela.
- Hum, mas tu não consegues ser casado?
- Como não? Já o fui duas vezes! Não falo de ser fiel. Sabes, o meu médico disse-me que estou incapacitado de ser fiel. Mas quero-te a acordar comigo. Não te posso prometer fidelidade.
- Que diagnóstico tão conveniente. Eu aceito. Não espero a tua fideliadade mas juras-me lealdade?
- A ti? Sempre.
Casar-me com um pintor comunista não prometia uma vida tranquila mas assegurava-me personalidade. Ser artista era ser de cada modelo, era não ser fiel a só uma mulher, era amar tudo e com a mesma força. Por isso me apaixonei por ele, pelo que era, pela franqueza de me ser leal e pela coragem de mesmo assim querer acordar comigo. O que mais admirava naquele homem de ideais convictos era a capaciadade de ser realista, de me criticar sem rodeios, de ver beleza nas minhas imperfeições e assim fazer de mim perfeita.
Durante 8 anos mesmo infiel, o meu comunista foi-me leal. Apoiou-me e fui pintando, em cada pincelada marcava o que tão dificilmente me custava admitir. Sabia da sua mania de amar tudo de ver o sexo apenas como algo humano, sem amor, só toque. A tinta rosa soava a vermelhão, a amarela em laranja carregada e fui tornando os meus quadros num puzzle de turbilhões de sentimentos contrários, fui crescendo com tintas e pincéis. Também tinha os meus romances passageiros, envolvi-me com mulheres e com homens, mas somente à noite me satisfazia, tinha-o comigo, dentro de mim e isso fazia sentir-me segura. A sua fama cresceu, as traições aumentaram e a lealdade outrora inquebrável, quebrou. Encontrei-o no seu atlier, nu e com a carne suada como um porco num dia de romaria, por cima de uma mulher, provavelmente outra dessas rameiras com quem costumava dormir. Mas as probabilidades valem por serem imprevisíveis e aquele rosto tão familiar, resultou na dura constatação da traiçaõ da minha irmã e na desleadade do homem da minha vida. Afastámo-nos. Ele conseguiu fama e eu fui reconhecida noutros países. Tive tantos casos mas a ausência daquele pintor infiel e aporcalhado não se apagava. Fui presa por pensarem estar ligada aos ideais comunistas do meu marido e as dores aumentaram. Perdera um filho aos bocados, perdera a minha mãe mas não conseguia parar de pintar. Mesmo salva por ele da cela gelada que aprisionava os conspiradores, continuei sofrida, o meu corpo estava gradualmente a perder as forças. Continei a ter sessões intermináveis com o médico, endireitar a ferros a coluna, a tentar estar direita, engessada e destroçada continuei.
Uma tarde como outra qualquer, numa das muitas sessões inacabáveis com o doutor, descobri mais uma doença, a qual levou a que me retirassem dois dedos do pé.
"Porquê ter pés se tenho asas para me fazer voar". Foi então que ele apareceu, implorando para voltar a acordar comigo, na mesma ou noutra cama qualquer. Fiquei cada vez mais doente, até que surgiu a oportunidade de expor os meus quadros no meu país, o sabor dos dias quentes e as pessoas alegres iam finalmente poder identificar-se com o que pintava nos meus quadros. Pintava a minha dor, pintava a impossibilidade de ter limites, pintava a minha vida, o meu amor, e a minha dor. O meu marido dizia-me que era maravilhoso o que eu pintava, pois abstraía-me do mundo de fora para pintar o que me surgia do coração. Sim, auto-retratava-me sem rodeios, pintava-me e compreendia-me. Talvez por isso aprendi a ser eu. Aprendi a conhecer-me, sem ter de em comparar com os outros, aprendi que não pintar sonhos faz com que aprenda a tolerar-me, e ainda assim a ser feliz. Ele continuou ali, infiel mas leal, a olhar com doçura as minhas imperfeições e mesmo doente a dividir a vida que ainda tinha em mim. Impediu-me com a conivência do médico de ir à minha própria exposição, com a desculpa de não poder sair da cama. Mas fui, vi a minha exposição ao compasso das sinceras e críticas palavras do meu marido...
Adoeçi mais e mais, mas mesmo assim continuei a expressar a minha doença e a minha felicidade por ainda o ter. De repente tudo acabou, os meus olhos fecharam-se em permanente comtemplação daquele rosto de artista insento de hipocrisia. Consegui ser independente de mim e felizmente dependente dele.
NOTA: Esta estória foi completemente baseada no magnífico filme "Frida", da pintora mexicana Frida Kahlo, o qual eu aconselho todos a verem. Uma estória que nos deixa ser seduzidos pelo amor, a coragem e as cores quentes do México.